domingo, 16 de setembro de 2018

Codinome Verônica

   Estava distraído quando peguei o prato, a bandeja e os talheres até que a vi. Neste momento meu pensamento era único: ela. Meu batimento cardíaco estava demasiadamente acelerado, tinha certeza de que ao abrir a boca meu coração saltaria do peito e escaparia por entre meus lábios. Não deveria ter corrido tanto mas esse é o preço da combinação do sedentarismo universitário e desatenção ao horário. Não reclamo, afinal o saldo permaneceu positivo: encontrei-a e cheguei a tempo de jantar.
   O prato do dia era torta madalena. Sua camisa, cinza. O acompanhamento, acelga. Seu cabelo, preto. Na salada havia alface, rúcula e repolho. Em seu corpo, brincos, pulseira e nenhum anel. Cautelosamente me servi, não queria perdê-la de vista. Fui para a ultima fileira afim de ter visão de todas as outras e na concentração necessária a admiração a distância peguei comida suficiente para duas refeições. O senhor atras de mim esperava impaciente pela salada a minha frente. Fui pegar suco, o do dia era amarelo. Percebi ela sentar-se à mesa de dois lugares vagos. Essa era a hora: os olhos ficaram um segundo a mais fechados e então me virei.
   Controlei o máximo que pude o meu caminhar, não queria chegar na mesa parecendo desesperado e nem deixar o trajeto me desestimular, mas meu coração insistia em me desestabilizar com seus batimentos estrondosos. Devo admitir que a culpa era minha: não estava acostumado a impor tanto esforço, nem físico, nem psicológico. Parei a sua frente e ao levantar dos seus olhos falei, sem ao menos me dar conta: "Boa noite, a senhorita se incomodaria com a minha presença?" e um sorriso cativante surgiu em negativa. Enquanto sentava-me notei duas coisas: seu garfo era torto com ondas em dois dos quatro dentes, e estava parado na borda do prato. Vimos nossos próprios reflexos nos olhos um do outro antes de uma risada mútua preencher o silêncio e dar inicio a uma conversa intercalada com garfadas e risadas.
   Ela fazia Francês na Letras, tinha uma tia na Noruega e sonhava em ser poetisa. Não gostava de musicas com instrumentos e todas as do seu celular eram versões a cappella. A conversa estava indo bem, falei em tom audível, não fiquei vermelho e nem gaguejei, resolvi arriscar: "Teria a senhorita do garfo com ondas um nome?", "Claro que sim, mas acho que não devo te contar", "Por quê, não pareço confiável?", "Minha mãe sempre me disse pra não confiar em ninguém até saber um desejo dessa pessoa. Bem, vamos resolver isso!", ela avançou sobre mim e então senti uma dor incômoda: ela arrancou um cílio e estava com ele no polegar junto com um sorriso no canto da boca que dizia "vamos, faça um pedido". O cílio ficou no meu dedo. "Bem, agora você não pode contar o pedido. Acho que não posso confiar em você" "Hm, tudo bem. Te chamarei de Verônica!". Seu riso era alegre enquanto essa imagem desaparecia.
   O mesmo homem que queria salada na fila, agora esta sendo atrasado de novo por mim. Que imagem patética: um garoto parado e de olhos fechados em frente a uma máquina de suco.