sábado, 16 de agosto de 2014

Ramo N I

A festa foi divida em duas a medida que os copos se esvaziavam: uma no térreo, onde haviam mesas e podia-se conversar com tranquilidade e a outra no mezanino, onde além da pista de dança havia apenas um bar e alguns banquinhos. Além do pessoal da empresa não havia mais ninguém lá, de modo que a nossa mais recente solteira chegou a se perguntar se o lugar inteiro havia sido reservado. Ao fim do quinto shot de tequila, horas de dança e algumas caipirinhas, ela já estava alta e as emoções estavam começando a tomar conta do seu ser. A casa estava mais cheia do que ela se lembrava, talvez a empresa não tivesse reservado o local ou o álcool estava fazendo multidões ao redor dela. O designer que a tinha levado para as aulas de dança a chamou. Ele tinha notado que ela já havia bebido mais do que deveria. Perguntou porquê o namorado não veio com ela e nesse momento percebeu que uma lágrima começava a borrar sua face. Pergunta errada, hora errada. Logo notou o seu erro e a abraçou, tanto para pedir desculpas como para conforta-la. Eles foram para um canto afastado do bar e de costas para parede ela contou o quê houve antes da festa e exteriorizou seus medos de seguir em frente sozinha e a sensação de ficar sem chão. Ele não sabia o que responder, não tinha o que falar, então apenas abraçou-a com força. Ela chorou como se não houvesse mais nada no mundo, enquanto chorava fazia uma tentativa infrutífera de continuar o relato. O amigo pouco ou nada entendeu de suas palavras mas estava ali, como um irmão mais velho na primeira decepção amorosa da pequena ou como um cão a lamber as lágrimas de sua dona. Quando enfim o cansaço venceu a desolação ela adormeceu nos braços do amigo. A princípio ele não acreditou que ela havia realmente adormecido mas compreendeu depois de pensar no tanto que ela tinha trabalhado naquela semana, no desgaste emocional e na quantidade de álcool que estava correndo em suas veias. Decidiu que a deixaria dormindo em seu carro e pela manhã chamaria um taxi para ambos. O seu carro estava em uma rua paralela não muito distante mas mesmo assim chamou um amigo para acompanha-lo, não estava muito seguro de andar sozinho naquela hora.


Deitou-a no banco traseiro, abriu levemente a janela e antes de trancar o carro deixou o celular e um bilhete escrito: "Se precisar de algo, me ligue. Estou no bar" em sua mão.


Seu sono foi agitado; teve pesadelos. Nem o seu corpo e muito menos a sua mente estavam sãos. Acordou num misto de febre e estupor alcoólico, a sua primeira reação foi virar de lado e vomitar. No ato, tanto o celular quanto o bilhete caíram em cima do vômito. Ela estava começando a se sentir claustrofóbica e o mal cheiro não ajudava, resolveu que iria abrir a porta e respirar um ar puro. Por azar do destino, um grupo de trombadinhas estava passando do outro lado da rua quando ela abriu a porta. Todos os olhares se fixaram nela e ao ver que estava desacompanhada e o quão bela era, passaram a ter os mais diversos pensamentos e como uma alcateia, aproximaram-se. A mulher ao entender as intenções dos rapazes ficou estática, seu corpo simplesmente não lhe respondia. Quando eles estavam a um passo de distância ela pensou em se trancar no carro mas já era tarde demais. Começaram a passar a mão em seu rosto, pescoço... peito e nessa hora ela gritou. Eles riram, chamaram-a de princesa e a levantaram. Um deles começou a rasgar o vestido pela parte de trás enquanto ela se debatia.


Na esquina quatro amigos acabavam de surgir; um alto, com blusa de couro e cara de galã; outro forte, com corrente na calça ao melhor estilo bad boy; o terceiro com uma boina e um cachimbo; e o ultimo tinha os olhos puxados e usava um colete preto por cima de uma camisa branca. Mesmo à parca luz das ruas cariocas era imediatamente compreensível o que se procedia a mulher. Os quatro correram a tirar os homens de perto dela e em pouco já se tinha instaurado uma pancadaria. Os amigos estavam em desvantagem numérica e menos sóbrios também. Entre socos e pontapés, um dos estupradores surgiu com uma garrafa e a usou como arma, tendo como alvo a cabeça do homem de colete. Por puro reflexo ele bloqueou o golpe com as costas da mão, mas a garrafa estourou e um pedaço do vidro encontrou lar ali mesmo.

    O que se deu a seguir foi muito rápido e de um todo confuso para todos. O rapaz do celete se contorceu de dor e olhou para o lado, onde a moça que estavam defendendo tinha acabado de vomitar e agora olhava para ele. Um segundo e o reconhecimento. Surgiu então uma luz vermelha seguida de uma azul, voltando para a vermelha. Uma mão no ombro do rapaz de colete o puxava e o dono da mão, o rapaz de boina, gritava para correr. O rapaz de colete, cuja mão sangrava queria perguntar por quê? Para onde? Havia acabado de reencontra-la mas já era tarde, arrependia-se de um dia ter falado "too late, honey". Uma frase nunca tinha ressoado tanto em sua mente. Já tinha sido arrastado entre vielas e ruas desertas. Agora só restava utilizar todo o seu vocabulário de impropérios contra seus amigos por terem tirado-o de perto de sua antiga amada. Quanto ao que se passou na cabeça dela, até mesmo a própria teria dificuldade em explicar. Houve um misto de pânico, quase fora estuprada; alegria, havia encontrado um amor há muito não visto; raiva, por ter bebido tanto e acabado naquele estado; e até certo ódio, ao se lembrar de como ele a largou.

Quando os policiais encostaram o carro encontraram a mulher perdida em sua mente. Eles a levantaram ela foi tragada de volta a realidade. Eles perguntaram se ela estava bem mas não houve resposta; os policiais admitiram que isso era um não. Em um ritmo lento e pausado ela relatou sua desventura e eles informaram que ela teria que acompanha-los a delegacia afim de registar o boletim de ocorrência. Ela concordou mas pediu papel e caneta. Ainda lembrava-se que aquele era o carro do seu amigo e em algum momento ele haveria de procura-la ali; escreveu um bilhete dizendo que estava bem e deixou em cima do painel do carro antes de fecha-lo. Felizmente a delegacia era próxima da casa de sua prima, pois quando la chegaram ela notou que não estava com nada salvo o RG, encontrado no banco traseiro do carro. Tudo ocorreu como esperado, incluindo a demora para se fazer o b. o. Já passava das oito quando ela foi liberada e sem um real no bolso rumou para a casa da prima. Precisava de alguém para conversar e uma cama para dormir. A cama ela conseguiria usando a chave guardada debaixo do tapete, a pessoa dependeria da agenda da embaixada. Ao destrancar a porta reuniu todas as forças para não ir direto para cama e foi tirando a roupa no caminho do banheiro. Na porta do quarto lembrou-se da toalha e do pijama que maquinalmente pegou antes de entrar no banho. Meia hora embaixo da morna água do chuveiro reestruturou a sua alma mas seu corpo ainda não havia se recomposto da bebedeira. Dormiu rápido mas o seu sono era leve e irrequieto, tinha coisas demais passando por sua manete e ao ranger da porta ela acordou. A preguiça que geralmente acompanha o despertar abandonou-a e em segundos ela estava no meio da sala. Sua prima não tinha percebido a sua presença, o que era compreensível, afinal depois de dez horas com um turco a lhe importunar, a concentração de qualquer um tende a zero. A designer correu a abraçar a sua prima que a principio levou um susto por haver alguém em casa, e depois preocupou-se pela demora do ato. A prima acariciou os cabelos dela e puxou a cabeça para trás afim de se olharem. A face da designer não escondia nem um pouco o caos interior. Maternalmente a prima perguntou o que ela tinha. Fome, foi a resposta. Elas caíram num riso cansado e resolveram que iriam comer uma antiga especialidade delas: miojo. Enquanto a água esquentava ela começou a contar o que ocorrera na noite anterior, desde o término do seu namoro até quando ela fora salva pelo seu ex. Ao contar esta última parte ela sentiu uma pontada de felicidade, lembrou dos bons dias mas sabia que eles haviam passado... Além disso, olha o que ele já lhe fez! O que você está pensando mulher? O que é essa lágrima escorrendo pelo seu rosto? Recomponha-se!

A prima apenas assistiu o rosto dela molhar-se, sabia que ela precisava de algum espaço. O Miojo ficou pronto e elas comeram enquanto conversavam. Após todo o desabafo, com o peito mais leve e o estomago preenchido, ela ligou para o seu amigo afim de contar seu desfortúnio e perguntar sobre seus pertences. Ele disse que levaria na casa dela e ao desligar ela lembrou que não tinha como voltar para casa, A prima ofereceu-lhe carona. Sua casa estava tal como havia deixado na sexta. Era tudo tão familiar e ao mesmo tempo tão distante. Há menos de vinte e quatro horas ela era tão convicta em suas verdades e agora tudo estava tão instável; questionava tudo, até por que estava se questionando. Mais uma vez ele foi pega em meio aos seus pensamentos quando a campainha tocou; não havia notado o quão estridente e irritante era aquele som; iria troca-lo, ou melhor, tira-la. Na porta estava seu amigo do serviço com as suas coisas. A carteira estava limpa e inteira mas o mesmo não podia-se dizer do celular. O amigo fez o máximo que pode mas o cheiro de vômito persistira. Ele foi embora e ela enfim se sentiu só. Dessa vez não havia lágrimas, apenas um vazio. Um vazio que ela não sabia preencher e nem esquecer, pois sentia falta do passado, do presente e até do futuro que não iria mais acontecer.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Base L I

A duras penas ela se formou e sua infância deixou. Mudou de cidade, de estado e de companheiro. Agora vive sob uma das maiores temperaturas do país com a mais pálida cor da nação; são os ossos da profissão e o afeto a esse tom. Toda essa mudança não foi fácil, muito menos confortável: num baque só perdeu o contato com seus amigos; da sua família via apenas a prima, no curto período em que esta não estava na embaixada, descobriu que o namorado a traia e enfim deixou a casa que desde criança morou.


A principio, os dias foram difíceis e as noites, em especial, dolorosas. Mas lembrem-se: um homem se conforma, mais ou menos, com as perdas que tem e o mesmo ela fez. Pelo terceiro mês começou a sair com sua equipe de trabalho, todos designers, gente fina. Ao quinto, teve uma crise depressiva e decidiu que faria academia. No mesmo mês desistiu, não lhe agradava a ideia de ser um ratinho a brincar em sua roda e lhe faltava um incentivo para não desistir. No oitavo, um dos designers com quem ela trabalha começou a tomar aulas de dança e ela o acompanhou. Ossos moídos e pernas cansadas, isso foi tudo que ela trouxe do primeiro dia mas a persistência de seu colega a fez retornar para a segunda aula, para a terceira e para a quarta também! Assim nasceu o seu gosto pela dança. Pelo décimo oitavo mês, conheceu, em um desses torneios de dança, um garoto pelo qual se apaixonou.

A diferença etária era notória mas não incomodava nenhum dos dois. Os olhos dele eram verdes e os cachos que lhe caiam ao ombro, meigos. Sua fala era mansa e seu tom, doce. Começaram a sair e em pouco uma cama já tinham partilhado. Não que ele fosse o primeiro desde o término de seu namoro, mas foi o primeiro a faze-la esperar uma ligação no dia seguinte, um chamado para ir ao cinema ou, quem sabe, ao parque... Essas coisas de casal. Os dois tinham uma sinergia muito grande, tanto na pista de dança quanto na vida. Ele era quase um anjo para ela, o que logo virou motivo de apelido, contrariando todo o discurso que usara em sua adolescência. Ela havia mudado muito desde os despreocupados dias de ensino médio e estava começando a tomar ciência disto. Com o passar dos meses, a vida de seu amado foi se tornando um pouco mais clara, ele era um tanto quanto reservado quando o assunto era o passado, o que é até compreensível: sua mãe morrerá com ele no colo, fora atropelada saindo do hospital dias após o parto e por alguma inexplicável causa, a vida da criança não se esvaiu. O pai transformara-se num alcoólatra após a perda da esposa, morrendo dois anos após, de cirrose. O recém nascido foi criado essencialmente pelo esforço da irmã e seu namorado.


Alguém poderia dizer, que esta foi a causa do seu extremo afeto e ciúmes pela irmã. Ele nunca soube controlar muito bem o que sentia, em especial, os sentimentos possessivos; sua namorada estava começando a notar isso. Tudo começou quando ele viu uma foto dela dançando com um homem num bar. Ele vestia-se bem e, até o namorado tinha que admitir, era bonito. Ela explicou que o rapaz era apenas um colega de trabalho e não sentia nada por ele, e mesmo que sentisse, o designer fazia jus ao esteriótipo: não gostava de mulheres. Pouco efeito esse argumento surtiu; as emoções tendem a dar pouco valor a razão. Os anos, entretanto, tinham dado a namorada jogo de cintura o suficiente para acabar a discussão ali. Aquele dia era especial, era o aniversário de um ano de namoro e ela não deixaria nada acabar com o momento. Outros ataques de ciúmes menores vieram e a cada episódio, mais triste ficava o coração dela. Por vezes ela se perguntava, entre lágrimas de tristeza, de ódio ou xícaras de café amargo, o porquê de tudo aquilo. Será que ele desconfiava dela ou não confiava em si próprio? Ela já dera tantas provas de amor e confiança, então por que insistir com esse ciúmes besta? Tudo ela aguentou, ora brigando, ora calando ou simplesmente não contando, até o dia da comemoração de sua promoção.

Afim de reunir datas comemorativas, a minifesta fora marcada no aniversário de cinco anos da empresa; uma sexta-feira de agosto. Todos os empregados, umas trinta e cinco pessoas, foram convidados. Marcaram em um barzinho cujo mezanino era uma pista de dança, num bairro próximo do mar.

Ela estava começando a se vestir quando o namorado chegou em sua casa. Estavam atrasados, portanto ele deu apenas um beijo e correu para o banho. Ao cabo de dez minutos ele saiu do banheiro e a namorada já estava pronta. Ela estava acostumada a se arrumar em pouco tempo, tinha adquirido esta habilidade para ter mais quinze sagrados minutos na cama pela manhã. Ao ver como ela estava vestida ele falou que ela não iria daquele jeito. Ela não entendeu: usara o mesmo vestido há poucos meses em uma competição de dança e ele até elogiara, de qualquer forma: quem ele pensa que é para me dar ordens? Ele continuou, criticou o tamanho do vestido, o decote, disse que estava se vestindo daquela forma para se insinuar para o rapaz do bar. Essa foi a gota d'água, ela desatou a chorar; não era tanto pelo que ele falava na hora mas sim por meses daquilo.

Entrementes, ela estava estarrecida, era a primeira vez que ele falava abertamente a ultima parte; concluira: ele não confiava nela. Ao ver o choro quieto, o namorado calou e tentou um abraço dar, uma humilde desculpa pedir mas já era tarde, a palavra proferida não volta e com a mão ela recusou ambos, o abraço e a desculpa. Por alguns minutos ela chorou, como que lavando a alma de toda a tristeza e ao fim, secou os olhos, agora borrados com maquiagem, e se dirigiu silenciosamente ao quarto, onde se trancou. Ele inutilmente tentou abrir a portar e ficou a chamar por ela. Ele pensou em arrombar a porta e ia mesmo faze-lo quando ela se abriu e do quarto a namorada saiu com a maquiagem refeita, uma mala na mão e em seu rosto, uma outra mulher. Diante desta imagem, mil coisas passaram pela cabeça dele e outras mil preocupações. Você está pensando em fugir? Esta foi a primeira pergunta feita, meio que sem a sua plena consciência. Ela jogou a mala nos pés dele e disse que aquilo eram as roupas que ele tinha deixado na casa dela, quanto as dela na casa dele, ela não se importava se ele iria queimar, vender ou doar; não as queria de volta. Ele pegou a mala e começou a perguntar se ela estava expulsando-o da vida dela mas antes da frase terminar, ele foi calado com um beijo e, em seguida, encaminhado para a porta que ela trancou ao passar. Então as ultimas palavras que ele ouviria dela foram proferidas: "Eu não te amo mais, não me procure. Foi bom te conhecer". Ela entrou no taxi e rumou para a festa. Estava quebrada por dentro mas decidiu que nenhum pedaço cairia; não naquele momento.