segunda-feira, 26 de maio de 2014

Base L I

A duras penas ela se formou e sua infância deixou. Mudou de cidade, de estado e de companheiro. Agora vive sob uma das maiores temperaturas do país com a mais pálida cor da nação; são os ossos da profissão e o afeto a esse tom. Toda essa mudança não foi fácil, muito menos confortável: num baque só perdeu o contato com seus amigos; da sua família via apenas a prima, no curto período em que esta não estava na embaixada, descobriu que o namorado a traia e enfim deixou a casa que desde criança morou.


A principio, os dias foram difíceis e as noites, em especial, dolorosas. Mas lembrem-se: um homem se conforma, mais ou menos, com as perdas que tem e o mesmo ela fez. Pelo terceiro mês começou a sair com sua equipe de trabalho, todos designers, gente fina. Ao quinto, teve uma crise depressiva e decidiu que faria academia. No mesmo mês desistiu, não lhe agradava a ideia de ser um ratinho a brincar em sua roda e lhe faltava um incentivo para não desistir. No oitavo, um dos designers com quem ela trabalha começou a tomar aulas de dança e ela o acompanhou. Ossos moídos e pernas cansadas, isso foi tudo que ela trouxe do primeiro dia mas a persistência de seu colega a fez retornar para a segunda aula, para a terceira e para a quarta também! Assim nasceu o seu gosto pela dança. Pelo décimo oitavo mês, conheceu, em um desses torneios de dança, um garoto pelo qual se apaixonou.

A diferença etária era notória mas não incomodava nenhum dos dois. Os olhos dele eram verdes e os cachos que lhe caiam ao ombro, meigos. Sua fala era mansa e seu tom, doce. Começaram a sair e em pouco uma cama já tinham partilhado. Não que ele fosse o primeiro desde o término de seu namoro, mas foi o primeiro a faze-la esperar uma ligação no dia seguinte, um chamado para ir ao cinema ou, quem sabe, ao parque... Essas coisas de casal. Os dois tinham uma sinergia muito grande, tanto na pista de dança quanto na vida. Ele era quase um anjo para ela, o que logo virou motivo de apelido, contrariando todo o discurso que usara em sua adolescência. Ela havia mudado muito desde os despreocupados dias de ensino médio e estava começando a tomar ciência disto. Com o passar dos meses, a vida de seu amado foi se tornando um pouco mais clara, ele era um tanto quanto reservado quando o assunto era o passado, o que é até compreensível: sua mãe morrerá com ele no colo, fora atropelada saindo do hospital dias após o parto e por alguma inexplicável causa, a vida da criança não se esvaiu. O pai transformara-se num alcoólatra após a perda da esposa, morrendo dois anos após, de cirrose. O recém nascido foi criado essencialmente pelo esforço da irmã e seu namorado.


Alguém poderia dizer, que esta foi a causa do seu extremo afeto e ciúmes pela irmã. Ele nunca soube controlar muito bem o que sentia, em especial, os sentimentos possessivos; sua namorada estava começando a notar isso. Tudo começou quando ele viu uma foto dela dançando com um homem num bar. Ele vestia-se bem e, até o namorado tinha que admitir, era bonito. Ela explicou que o rapaz era apenas um colega de trabalho e não sentia nada por ele, e mesmo que sentisse, o designer fazia jus ao esteriótipo: não gostava de mulheres. Pouco efeito esse argumento surtiu; as emoções tendem a dar pouco valor a razão. Os anos, entretanto, tinham dado a namorada jogo de cintura o suficiente para acabar a discussão ali. Aquele dia era especial, era o aniversário de um ano de namoro e ela não deixaria nada acabar com o momento. Outros ataques de ciúmes menores vieram e a cada episódio, mais triste ficava o coração dela. Por vezes ela se perguntava, entre lágrimas de tristeza, de ódio ou xícaras de café amargo, o porquê de tudo aquilo. Será que ele desconfiava dela ou não confiava em si próprio? Ela já dera tantas provas de amor e confiança, então por que insistir com esse ciúmes besta? Tudo ela aguentou, ora brigando, ora calando ou simplesmente não contando, até o dia da comemoração de sua promoção.

Afim de reunir datas comemorativas, a minifesta fora marcada no aniversário de cinco anos da empresa; uma sexta-feira de agosto. Todos os empregados, umas trinta e cinco pessoas, foram convidados. Marcaram em um barzinho cujo mezanino era uma pista de dança, num bairro próximo do mar.

Ela estava começando a se vestir quando o namorado chegou em sua casa. Estavam atrasados, portanto ele deu apenas um beijo e correu para o banho. Ao cabo de dez minutos ele saiu do banheiro e a namorada já estava pronta. Ela estava acostumada a se arrumar em pouco tempo, tinha adquirido esta habilidade para ter mais quinze sagrados minutos na cama pela manhã. Ao ver como ela estava vestida ele falou que ela não iria daquele jeito. Ela não entendeu: usara o mesmo vestido há poucos meses em uma competição de dança e ele até elogiara, de qualquer forma: quem ele pensa que é para me dar ordens? Ele continuou, criticou o tamanho do vestido, o decote, disse que estava se vestindo daquela forma para se insinuar para o rapaz do bar. Essa foi a gota d'água, ela desatou a chorar; não era tanto pelo que ele falava na hora mas sim por meses daquilo.

Entrementes, ela estava estarrecida, era a primeira vez que ele falava abertamente a ultima parte; concluira: ele não confiava nela. Ao ver o choro quieto, o namorado calou e tentou um abraço dar, uma humilde desculpa pedir mas já era tarde, a palavra proferida não volta e com a mão ela recusou ambos, o abraço e a desculpa. Por alguns minutos ela chorou, como que lavando a alma de toda a tristeza e ao fim, secou os olhos, agora borrados com maquiagem, e se dirigiu silenciosamente ao quarto, onde se trancou. Ele inutilmente tentou abrir a portar e ficou a chamar por ela. Ele pensou em arrombar a porta e ia mesmo faze-lo quando ela se abriu e do quarto a namorada saiu com a maquiagem refeita, uma mala na mão e em seu rosto, uma outra mulher. Diante desta imagem, mil coisas passaram pela cabeça dele e outras mil preocupações. Você está pensando em fugir? Esta foi a primeira pergunta feita, meio que sem a sua plena consciência. Ela jogou a mala nos pés dele e disse que aquilo eram as roupas que ele tinha deixado na casa dela, quanto as dela na casa dele, ela não se importava se ele iria queimar, vender ou doar; não as queria de volta. Ele pegou a mala e começou a perguntar se ela estava expulsando-o da vida dela mas antes da frase terminar, ele foi calado com um beijo e, em seguida, encaminhado para a porta que ela trancou ao passar. Então as ultimas palavras que ele ouviria dela foram proferidas: "Eu não te amo mais, não me procure. Foi bom te conhecer". Ela entrou no taxi e rumou para a festa. Estava quebrada por dentro mas decidiu que nenhum pedaço cairia; não naquele momento.